Assassin's Creed Shadows mostra hipocrisia na guerra contra a 'lacração' nos games - Opinião

5 min de leitura
Imagem de: Assassin's Creed Shadows mostra hipocrisia na guerra contra a 'lacração' nos games - Opinião

Depois de muitos meses, polêmicas e adiamentos, finalmente Assassin’s Creed Shadows chegou em nossas mãos. Lançado dia 20 de março para PS5, Xbox Series X e S e PC, o jogo agradou muita gente e ficou com aproximadamente 81 de média no Metacritic e no OpenCritic.

Diversos YouTubers, influencer e sites especializados de tudo quanto é tipo publicaram suas impressões e foram poucos os que desaprovaram o game. O Diego Borges fez a análise aqui pelo Voxel e ficou impressionado, dando 88 de nota. Você pode conferir a review completa aqui no nosso site, ou lá no YouTube do Voxel.

Para promover o lançamento do game, a Ubisoft Brasil produziu um vídeo incrível, em que homenageia o gênero Tokusatsu, que são séries e filmes japoneses de ação com muitos efeitos especiais, tipo Kamen Rider e até Power Ranger. Aquelas obras que a galera sangra faíscas, sabe?

E pra tornar o vídeo ainda mais nostálgico e emblemático, eles chamaram Edu Falaschi para cantar a música tema. Falaschi é ex-membro da banda de power metal Angra e o interprete da versão brasileira da música Pegasus Fantasy, abertura do anime Os Cavaleiros do Zodíaco.

Nem mesmo o comercial de sucesso escapou de comentários preconceituosos

Obviamente, o vídeo foi extremamente bem recebido, tanto nacional quanto internacionalmente, com diversos veículos como Polygon e Eurogamer postando matérias sobreo assunto. Só que, então, aconteceu algo.

Alguns gringos preconceituosos e extremamente mal-intencionados começaram a comentar que a influencer e apresentadora do Flow Games e ex-Voxel, Thais Matsufugi, era uma mulher trans, como se isso fosse uma ofensa. É importante salientar que esses comentários não são aleatórios. São ataques esquematizados por pessoas que acreditam que o jogo é lacrador.

Ou seja: há uma predisposição de parte do público a detestar certos jogos com certas características. No fim, quando se fomenta ódio e preconceito na internet, ele se espalha e a vítima pode ser qualquer um, inclusive aqueles que um dia já espalharam hate por aí, ou estão muito próximos dessas pessoas. Acontece que essa pré-disposição, muitas vezes, não se sustenta.

A hipocrisia na guerra contra a "lacração" nos games

Há diversos casos em que há uma mudança de narrativa relacionada ao sucesso de um game. Um caso recente é Monster Hunter Wilds. Há diversas discussões no Reddit, Twitter e até mesmo nas comunidades da Steam que diziam que o jogo queria lacrar porque a Olivia, uma das principais personagens do game, usa armadura e tem uma vibe bem masculina, por exemplo.

Eis que, três dias após o seu lançamento, Wilds vende 8 milhões de cópias e se torna o maior lançamento da história da Capcom. Jogo lacrador fazendo sucesso? Nada disso! Como você pode dizer que um game que tem uma personagem como a Gemma é lacrador? A Capcom ouviu o público! Aham, sei…

O mesmo aconteceu com Split Fiction, novo game dos desenvolvedores de It Takes Two. Nele, você não tem uma protagonista mulher, você tem DUAS protagonistas mulheres. Ou seja, para alguns gamers, era um jogo feminista, lésbico e, portando, lacrador.

Mas no fim, o título da Hazelight vendeu 2 milhões de unidades em uma semana. Então, na verdade, esse era tipo o que a gente queria! “Um jogo focado em gameplay, sem lacração e coisas do tipo, só diversão!”

Tá percebendo como esse julgamento prévio por questões sociais e ou culturais cai por terra quando a narrativa não cola? E tá vendo como é puramente uma questão de dificuldade de alguns em enfrentar o seu preconceito?

Existem casos, inclusive, em que os jogos foram previamente atacados por serem considerados lacradores e, no fim, eles eram ruins, mas não por esse motivo. O Dragon Age: The Veilguard, por exemplo, teve reclamações da construção da história, dos diálogos numa pegada Marvel e nos visuais coloridos demais. Além de tudo, o marketing foi bem fraco.

Avowed, outra suposta vítima da "lacração", teve reclamações ao seu sistema de upgrade, narrativa fraca, falta de elementos convencionais em RPGs e companions esquecíveis.Ou seja, essa perseguição por conta da “agenda woke” não faz o menor sentido e a mudança de narrativa beira a hipocrisia.

Representatividade nos games

E sabe porque estamos tendo jogos cada vez mais diversos e inclusivos? Por uma questão bem simples: a ficção é um espelho da realidade e os criadores estão ligados nisso. Ainda estamos longe de uma indústria de games com bastante representatividade.

Segundo a IGDA, 24% das pessoas empregadas são mulheres, 3% são não-binárias e 2% são negras. Porém, cada vez mais vemos pessoas diferentes de mim ganhando espaço na indústria e em posições de maior destaque.

Neil Jones, Dinga Bakaba, Xalavier Nelson Jr., Amy Hennig, Kellee Santiago, Kim Swift, Karla Zimonja, Tiani Pixel, Fernanda Dias, Maddy Thorson. Todas essas pessoas e muitas outras estão mudando os videogames para sempre, sendo bem provável que você jogue games delas e nem sabia que são supostamente lacradores.

Assim, a gente volta para Assassin’s Creed Shadows, que passou por um fenômeno bem curioso. De repente, alguns fãs de longa data da franquia estavam muito bravos, pois um dos protagonistas é Yasuke, um homem negro samurai que realmente existiu, vivendo em meados do século XVI.

Tivemos um crescimento exponencial e repentino de historiadores do mundo, que vinham com documentos, artigos, livros e outras que mostrava que, na verdade, ele não era bem um samurai. Há diversos documento de época que dizem que ele tinha sido, sim, um samurai, e você pode saber mais sobre isso, por exemplo, nos livros “O Samurai Africano” e “Yasuke: The true story of the legendary African Samurai”, ambos de Geoffrey Girard e Thomas Lockley.

“Ah, mas a Ubisoft não está sendo historicamente verossímil”. Sério? Não lembro de ninguém reclamar de enfrentamos Odin, em Vallhala, e nem que lutamos contra um minotauro em Odyssey. Agora, um SAMURAI NEGRO que tem BASE HISTÓRICA não pode, né?

Vejam bem, videogames, sendo uma forma de arte, estão intrinsecamente ligados com o contexto histórico em que ele é lançado. No caso, Assassin’s Creed Shadows expôs, mesmo que de forma não intencional, o racismo estrutural da nossa sociedade, com pessoas que se contradizem ao exigir uma suposta veracidade histórica em uma franquia que nunca foi sobre isso, mas sim sobre contar uma história original em um contexto histórico específico.

E, agora, vimos também um machismo e uma transfobia estrutural, por meio dos ataques proferidos contra a Thaís, distorcendo palavras para um lugar pejorativo. O que nós queremos é que todos possam jogar e se sentir representados.

Afinal, videogame é cultura, e cultura deve ser para todos.

Cupons de desconto TecMundo:

Quer receber as melhores ofertas do TecMundo no WhatsApp?

Siga o nosso canal de ofertas!

Seguir e economizar
Você sabia que o TecMundo está no Facebook, Instagram, Telegram, TikTok, Twitter e no Whatsapp? Siga-nos por lá.